The Rope (2011)

The Rope”, Alfred Hitchcock 

“Neste tempo delicioso, quando se conta uma história
verídica é de acreditar que o diabo a ditou…”
Jules Barbey d’Aurevilly
 
(scroll for english version)
 

Introdução

“A Corda” é um filme de suspense de 1948. O seu argumento é uma adaptação realizada por Hume Cronyn e Arthur Laurents da peça de teatro de 1929 com o mesmo nome de Patrick Hamilton. Por sua vez, a peça de teatro original foi inspirada num acontecimento verdadeiro e no assassinato que ocorreu em 1924 de Bobby Franks, um jovem de 14 anos, que foi sumariamente executado por dois estudantes da Universidade de Chicago, Nathan Leopold e Loeb Richard.

O filme, de 80 minutos, foi dirigido por Alfred Hitchcock e Sidney Bernstein e produzido pelo próprio Hitchcock, constando como uma das suas primeiras produções transatlânticas. Os papéis principais são representados por James Stewart, John Dall e Farley Granger. Outra das novidades que este filme encerra é o facto de representar o primeiro filme em Tecnicolor de Hitchcock e, em termos cinematográficos também uma inovação, dar a ideia que foi todo ele rodado num único take.

O caos, a destruição e o mal não são obstáculos meramente temporários ou elimináveis para atingir uma sociedade perfeita. A atracção para o caos e a destruição reside, segundo muitos, no mais profundo da psique individual e social. E, embora não sejamos da opinião que Hitchcock não interpreta o mundo como inerentemente ou predominantemente perverso e mau, através dos seus filmes chama-nos constantemente a atenção para manter-mos uma constante e diligente vigilância.

Este filme está longe de ser um filme típico de Hitchcock. Em termos técnicos, foi construído com base em oito longo takes, uma técnica da qual se espera que imite as interações da “vida real” e que exigiram, pelo menos assim o pensamos, uma grande precisão e esforço por parte dos participantes da cena. Este tipo de técnica seria usada um ano mais tarde no filme Sob o Signo do Capricórnio (em 1949).

À exceção das legendas de abertura, todo o filme é rodado no interior, dentro do confinamento de um apartamento que, pelo que nos é dado a saber, localiza-se na cidade de Nova Iorque. O próprio homicídio, mote do filme, é de algum modo higiénico. Não há sangue (ao contrário de Psico[3]), os homicidas mantêm-se limpos e calmos (ao contrário de A Cortina Rasgada[4]) e David, a vítima nunca nos é apresentada, sendo impecavelmente enfiada numa arca onde se mantém na (quase) totalidade do filme.

Os homicidas são o exuberante e rico Brandon (interpretado por John Dall) e o seu frágil amigo pianista Phillip (interpretado por Farley Granger), e irão preparar um festim para essa noite onde, precisamente, sob a arca onde se encontrará o corpo morto, colocarão as bebidas e as velas (assemelhando-se um altar de uma cerimónia sacrificial). A somar a toda esta macabra cena, a arma do crime – a corda – é colocada à vista de todos os convidados, que são compostos pelo pai e a tia de David e o Professor dos 3 colegas.

Mote para o debate

Existe a enorme dificuldade neste desafio, que é neste Debate de Cinema fazer justiça quer ao filme de Hitchcock como a um resumo da noção de Übermensch (normalmente traduzido por super-homem) de Nietzsche. Podemos dizer, no entanto, que esta noção de super-homem é a culminação da sua visão sobre uma nova moralidade. É a experiência de uma “vontade de poder” numa forma elevada, refinada e modelada na vida de um excelente artista criativo, que faz da sua própria vida uma obra de arte. Esta vontade de poder poderá, assim, ser entendida como o impulso inato de todos os seres vivos para adquirirem e expressarem o seu poder. De acordo com Nietzsche, todos somos impulsionados por esta vontade de poder e a nossa tarefa será expressá-la de forma elevada.

Porém, a leitura Brandon é efetuada no sentido que a moralidade padrão, convencional, é apenas para as pessoas inferiores, enquanto os verdadeiramente superiores podem forjar uma moralidade do seu próprio cunho. Um homem vulgar, poderá pensar no crime perfeito, mas apenas os poucos superiores serão capazes de o cometer. Mas quem poderão ser esses homens superiores?

Nietzsche disse que o verdadeiro teste a uma teoria ou conceito filosófico é que se pudermos pô-lo em prática e viver com ele, então, será válido. Rupert percebeu, no filme, que é impossível viver com o conceito (errado) que andou a advogar e que Brandon, presumivelmente, também não. Devemos reter, no entanto, que apesar da vida se orientar por essa vontade de poder que Nietzsche expressa, de acordo com o mesmo, parece que o crime não pode ser arte, o que nos leva a tentar definir o que é o sentido de responsabilidade e à questão de que o conforto nas ideias não é suficientemente forte (mesmo que elas nos possibilitem questionar os preconceitos), para lutar contra as letargias da sociedade.

(Debate)

Caldas da Rainha, 30/11/2011


[1] Texto apresentado no Ciclo de Cinema e Debate, 2011 organizado pelo PAR, Pensar a Representação na Escola Superior de Artes e Design, Caldas da Rainha do Instituto Politécnico de Leiria. (mais informação disponível em http://cadernospar.blogspot.com)
[2]David Etxeberria é docente do curso de Artes Plásticas na Escola Superior de Artes e Design das cadeiras de Introdução ao Vídeo e Arte Vídeo. Etxeberria é artista plástico desde 1996 e encontra-se a terminar o programa doutoral em História, Filosofia e Património da Ciência e Tecnologia, para além disso detém o Mestrado em Cultura Contemporânea e Novas Tecnologia e a Licenciatura em Artes Plásticas.
[3] de 1960.
[4] de 1966.

“The Rope”, Alfred Hitchcock

In this delightful time when someone tells a true story
is to believe that the devil dictated it… “
Jules Barbey d’Aurevilly

Introduction

“Rope” is a 1948 thriller. His argument is an adaptation made by Hume Cronyn and Arthur Laurents’s of the play with the same name by Patrick Hamilton (1929). In turn, the play was originally inspired by a true event that occurred in 1924 when Bobby Franks, a 14 year old, was summarily executed by two students of the University of Chicago, Nathan Leopold and Richard Loeb.

The 80 minutes film, was directed by Alfred Hitchcock and Sidney Bernstein and produced by Hitchcock himself, stating as one of its first transatlantic productions. The main roles are characterized by James Stewart, John Dall and Farley Granger. Another novelty of this film is that this movie is the first film in Technicolor of Hitchcock, and also a breakthrough in industry, giving the impression that it was all filmed in one take.

The chaos, the destruction and the evil are not merely temporary or clearable obstacles to achieve a perfect society. The attraction to chaos and destruction lies, according to many, in the depths of individual and social psyche. And although we are not of the opinion that Hitchcock does not interpret the world as inherently evil or predominantly bad, through its films, Hitchcock constantly calls us to keep attention to a constant and diligent monitoring.

This movie is far from being a typical Hitchcock movie. In technical terms, it was built on eight long takes, a technique which was expected to mimic the interactions of “real life” and demanded that at least we think so, a great precision and effort by the participants of the scene. This kind of technique would be used one year later in the film Under Capricorn (in 1949).

Except for the opening credits, the entire film is shot inside, within the confines of an apartment located in New York City, so it is given to know. Even the murder, the theme of the film is somehow hygienic. No blood (unlike Psycho – 1960), and the murderers remain clean and quiet (unlike Torn Curtain – 1966) and the victim, David, is never presented, neatly tucked in a chest where he remains in (almost) all of the film.

The murderers are the lush and rich Brandon (played by John Dall) and his fragile pianist friend Phillip (played by Farley Granger), who will prepare a feast, with drinks and candles (resembling an altar of a sacrificial ceremony), precisely above the chest where the dead body remains. To add to this entire macabre scene, the murder weapon – the rope – Is placed in plain sight of all guests, which are composed by her father, the aunt of David and the Professor of all three colleagues.

Tone for the debate

There is great difficulty in this challenge of this Film Debate, which is to do justice either to the Hitchcock film as an abstract notion of the Übermensch (usually translated as superman) of Nietzsche. We can say, however, that this notion is the culmination of his vision of a new morality. It is the experience of a “will to power” in a high fashion, refined that might shape the life of a great creative artist, who makes his life a work of art. This will to power can thus be understood as the innate drive of all living things to acquire and express their power. According to Nietzsche, we are all driven by this desire for power and our task is to express it in higher ways.

Thought, the reading creates an effect in the sense of morality standards of Brandon, when he understand that for people below the truly superior mans can forge a morality of its own slant. An ordinary man may think of the perfect crime, but only the top few will be able to commit it. But who are these men who may be truly superior?

Nietzsche said that the best way to test of a theory or a philosophical concept is if we can put it into practice and live with it. Rupert figures it up that is impossible to him to live with this concept and presumes that even Brandon can’t. We retain, however, that although life is guided by the will to power that Nietzsche expresses, according to the same, it seems that the crime cannot be art, which leads us to try to define what is the sense of responsibility and the demand that ideas that comfort us are not strong enough (even if they allow us to question the prejudices), to fight the lethargy of society.

(Debate)

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