Não conhece? Entre… Marco Rodrigues (2012)

A folha de sala esteve patente na exposição em 16 de Junho de 2012, Ílhavo.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!”
Álvaro de Campos [Fernando Pessoa], Ode Triunfal
 

NÃO CONHECE? ENTRE…

Sugerir que os artistas de hoje devem reconhecer, honrar e perpetuar os códigos de qualquer médium, tal como existia há cinquenta anos atrás numa classificação Modernista onde cada um “determinava, através de suas próprias operações e obras, o efeito exclusivo para si[1] é manifestar-se negativamente à “subversão” da própria produção artística. Parece-nos, assim, bastante mais estimulante criar uma dobra na pintura e cultivar uma prática reflexiva sobre o mundo, a condição humana e, simultaneamente erigir um discurso sobre o próprio médium artístico – a pintura, a fotografia ou as técnicas de impressão.

Essas características de “excesso contemporâneo”, nas palavras de Álvaro de Campos, encontram-se patentes na obra singular de Marco Rodrigues, cujo horizonte recupera, entre formas de representação como a fotografia e a serigrafia, momentos de triunfo, momentos e monumentos históricos, reportagens observacionais, ou instantes banais e do quotidiano. Na manifestação dessa essência, as suas obras transportam-nos ao momento da fabricação, ao cuidado colocado pelo autor na construção de camadas de tinta onde cada uma conta uma história diferente, uma reportagem mas que, no seu conjunto, relatam e retratam uma identidade.

Na especificidade das obras aqui reunidas, Marco Rodrigues, aproxima o quotidiano do espectador e a especificidade da sua produção entra necessariamente em jogo estabelecendo, a partir do corpo, novas relações entre a expressão e uma nova lógica das sensações. Tal harmonia coage-nos a refletir sobre a vida, sobre as suas ocorrências banais e, especialmente, na forma como tais acontecimentos, de uma forma mais profunda, influenciam a nossa vida e a própria produção artística.

David Etxeberria

Caldas da Rainha, Junho de 2012


[1] GREENBERG, Clement. (1993), Modernist Painting. In J. O’Brian (Ed.) Clement Greenberg: The Collected Essays and Criticism, (pp. 85-93), University of Chicago Press.
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